quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

#183 O Templo


Passamos a vida inteira a fugir de nós. De nós mesmos. Até que enfim, nos lembramos... 

Pelo meio: avanços e recuos. Eternas partidas e derradeiras chegadas. Dores, lágrimas mil... Mas também alguns sorrisos, que valem bem por todas as lágrimas enxugadas.

No capítulo das partidas, têm sido anos duros. Muito duros, até. Este ano continua a sua senda costumeira, premiando-me com a dor habitual. (nada de novo, afinal)

Pelo menos, compreendo melhor os fenómenos do apego e da aversão. E liberto-me agora, com maior desenvoltura e rapidez dessas armadilhas.

Volta e meia, a vida surpreende-me e traz algo de novo, mas na realidade sinto que estou numa espécie de loop contínuo. Certamente também por culpa minha. Porque... me esqueci. 


E  s   q    u     e   c i -  m   e     .   .    .


Estou por isso, cada vez mais de regresso ao Templo. Com maior frequência e regularidade.

Regresso a esse Templo, que fui construíndo interiormente, pedra sobre pedra, ao longo dos anos. Por vezes encontro-o abalado, mas jamais destruído.

Talvez também por isso, haja ainda lugares onde nunca fui, mas que reconheço e sei de cor como são... Isso, não obstante quase lhes tocar e sentir o cheiro. 

Na verdade, aos poucos a viagem vai sendo feita e as malas vão sendo fechadas. E.. não há como voltar atrás.



Boas Festas.




quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

#182 Tatua-me


Preenche-me de cor 

mas


por favor 
corta-me a carne.


Desenha-me o campo

ou 
o céu

ou


o espaço


Cobre-me de um véu
 e acolhe-me


 no 

teu 



e g a ç o. 



sábado, 20 de dezembro de 2014

#181 Ardente


Ardente ÉS, 
recordação distante,
 da cabeça aos pés
a montante e a jusante

me relembras...



Distância impermanente
memórias que perdeste, ausente

congelas o tempo
embrulhas em tons de esperança
saudades do que não vivi.

...e se Acaso me perdi
oxalá me encontres tu e 
jamais me largues.



ou que o porão onde guardas os teus sentires
me albergue já, 


perdido que estou.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

#180 Eu prometo


Demoraram anos e anos

mas aos poucos começo a lembrar-me.


Como poderia ser possível esquecer-te?
Depois de tudo o que já passamos juntos...

...tão marcante foi, que tive que
viver quase quatro décadas sem TI.

Talvez, para agora te redescobrir de novo
e começarmos exactamente no ponto em 
que terminamos a nossa caminhada, juntos.

Espero que me desculpes
ainda não te tratar com o carinho que mereces...


Prometo lembrar-me e fazer esse esforço
para merecer de novo

mais uma última 




VIAGEM.


Vou a caminho e nada me deterá. Acredita.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

#179 O Pai Natal e o miúdo morreram, faz 7 anos


11 de Dezembro de 2007, pelas 07h da manhã, recebia ao telefone a notícia que já esperava e que ansiava, dadas as condições.

Acabava de "partir para outras paragens", o meu Pai Natal. O alívio pelo fim do seu sofrimento, instalava-se em mim, num misto de paz e de saudade.

O Natal naturalmente jamais seria o mesmo. Ainda assim, desde a primeira hora, havia que mudar de página. E assim o tenho feito. Assim o temos feito todos.

Reencontro a alegria perdida nos sorrisos inocentes das crianças (que um dia fui e que de alguma forma continuo ainda a ser), no voluntariado que presto diariamente e indiscriminadamente, nas duas instituições que presido e nos sonhos que realizo. Meus e dos outros, porque a vida continua. Diferente, mas continua.

O Pai Natal morreu há 7 anos, mas o exemplo dele continua vivo no meu dia dia, os seus ensinamentos consolidaram-se em mim e naturalmente: o miúdo de alguma forma morreu, nesse dia também...

A vida é uma jornada imensa, cheia de potencialidades. Todos temos que partir um dia e mal daqueles que não se habituam a mais este patamar a que chegaremos.

A cumprirem-se as regras, o envelhecimento dá-se e leva-nos. Outras vezes, partimos mais cedo. E até lá... vemos partir muitos dos que mais gostávamos.

Sei que já cá estive várias vezes. Isso evidentemente, ajuda a compreender.

Não sei quantas estiveste, Pai... mas espero que para onde tiveres ido: trates bem o miúdo.