sexta-feira, 21 de novembro de 2014

#171 Vou em frente


À medida que os anos passam e as viagens se multiplicam, constato, que as mais profundas são sem dúvida as que efectuei ao meu interior.

No mais absoluto silêncio, na mais desafiadora solidão.

O fim de Novembro caminha a passos largos e com ele: novo final de ano... Como se o tempo pudesse ser medido pelo calendário. Como se o relógio contasse, para o que quer que fosse, nesta dinâmica dialéctica entre observador e observado, entre o participante que se torna cada vez mais simultaneamente observador. Dos outros... mas essencialmente de si mesmo.

Ir em frente, surge portanto, como o maior dos desafios, estabelecidas que estão as marcas que me definem a personalidade, com os seus prós e contras, para a sociedade em que vivemos. Em que ainda vivo.

Saborear o sabor da vertigem, apresenta-se ainda como o néctar predilecto, mas reservado cada vez mais para ocasiões especiais.

Porque se de um néctar se trata, não pode jamais ser banalizado. Nem sorvido, sofregamente.

Deve ser, isso sim, delicadamente pousado no palato do espírito e voar lentamente, até repousar no âmago da memória, mas sem apegos ou aversões que se querem cada vez: passageiras. 

A sabedoria, que vem necessariamente com o tempo e com as suas vivências adjacentes, traz-nos doces cartas escritas por pena afiada, em papel azul vinte e cinco linhas.

Estrelas que brilham, num céu de imenso azul recheado de reflexos do que fui, silhueta do que ainda há instantes era... sólida e serena imagem do que sou.

O que serei não importa. Celebremos antes: o AGORA. 


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

#170 Planos para 2016


Há locais onde felizes que fomos, teremos ainda assim, sempre que voltar. Uma e outra e outra vez.

O Boom Festival realizado na lua cheia de Agosto, em Portugal, é um deles. Essencialmente pelo que representa. Não tanto pelo passado que lá vivi, nem pelo futuro que eventualmente lá viverei... mas sim, porque lá, penso precisamente nesse tempo presente. Sinto-me em casa.

Tento pois também - agora, que cada vez mais desperto estou: permanecer exactamente nessa dimensão temporal que apenas interessa: o AQUI e o AGORA.

Ainda assim... nos poucos planos de futuro que me permito ter: "lá" voltar, é um deles.

Em oposição ao sufoco diário, lá respiro - por mais artificial e planeado que seja - ar de aparente LIBERDADE.

E se é para ser artificial, então que seja assim... até porque a dimensão real, somos nós que a atribuímos. Se nela inscrevermos a nossa marca e o nosso cunho.

E quanto a isso... faço-o sempre.

SEMPRE.



terça-feira, 18 de novembro de 2014

#169 EQUANIMIDADE


É engraçado como há palavras que entram na nossa vida com força e sentimos que vieram para ficar. Para se instalarem. Para em nós construírem a sua casa e o seu porto seguro.

EQUANIMIDADE, é de todas até hoje, tanto quanto me lembro: a mais forte.

Repetidas vezes a ouvi, como o estado zen desejável e o objectivo a alcançar no percurso, durante este retiro em que acabei de sair.

Ainda agora estou "cá fora", mas confesso, tenho uma saudade imensa do que lá senti. Uma saudade imensa dessa "sensação", qual contra-senso contra tudo quanto lá aprendi.

Afinal, o que lá aprendi foi verdadeiramente a observar as sensações, de uma forma equânime.

Não é tarefa fácil, garanto-vos.

E mais complexa ainda se torna, quando longe de um ambiente verdadeiramente controlado, é preciso manter tudo quanto aprendi e aplicá-lo no meu quotidiano.

Felizmente, algumas das lições vieram bem estudadas e pelo menos apercebo-me quando não estou a ir no caminho pretendido.

Tal e qual como agora, em que perante a memória da equanimidade alcançada enquanto lá estive, me permito sentir algum apego.

Tenho pois agora, que também trabalhar nisso. Pelo menos apercebo-me. 

Um ponto a favor. Melhorou.



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

#168 E voltei. Vipassana aprendida.


De volta dos meus 10 dias de silêncio total, sem contacto com o exterior, sem contacto com os outros participantes, sem poder tocar sequer em ninguém, sem poder olhar ninguém, sem poder falar.

10 dias sem livros, sem telemóvel, sem computador, sem televisão, sem poder tirar apontamentos, sem poder fazer exercício físico para além de caminhar.

10 dias a levantar às 04h para meditar, num programa rígido, que resultou cerca de 10 a 12h por dia... aliás, direi mesmo que foram bem mais. Porque se entra num estado, em que estamos em meditação quando andamos, quando comemos, mesmo nos períodos de descanso.

Foi isso a que me propus e foi exactamente isso que fiz.

A técnica consiste em deslocar a atenção para a respiração natural, (não forçada) e progressivamente deslocá-la para diferentes partes do corpo. Primeiro concentrando no topo da cabeça e depois descer para a testa, os olhos, o nariz, a boca, depois os ombros, topo do braço, cotovelo, braço inferior, dedos, etc, etc

À medida que o processo evolui, tornamo-nos cada vez mais conscientes do nosso próprio corpo e de cada parte individual. Entramos no campo das sensações cada vez mais subtis, aguçando a mente e tornando-a mais penetrante.

Das sensações mais "grosseiras", a que estamos habituados (dor, calor ou frio, ou a mera noção dessa parte do corpo) se avança progressivamente para outras sensações como: o ar ligeiro que toca na pele, vibrações, pulsações, expansão e contracção, "energia" que flui, etc, etc, até chegar à desmaterialização total (onde só o tempo e a prática continuada correctamente, podem contar).

Somos treinados para observar, observar, observar, nesta dicotomia entre ser-se observador do que se passa dentro de nós mesmos, tentando não reagir a nenhum impulso. Quando digo a nenhum impulso, digo nenhum. Ou seja: nem à dor... dor essa que surge nomeadamente nos períodos em que estamos em posição de lótus, ou perto disso...

O treino em mudar os padrões habituais da mente inicia-se, com a quebra da barreira consciente/inconsciente, desenvolvendo a visão interior da nossa própria natureza.

As sensações que desenvolvemos quando temos raiva, ódio, angústia, mas também paixão, etc, são observadas e demonstram-nos que tudo é impermanente.

Com vipassana tomamos nota dessa impermanência (anicca) e somos convidados a observar tudo com equanimidade, sem fazer juízos de valor, sem reagir às sensações agradáveis com apego, ou às sensações desagradáveis com repulsa, contrariando os habituais padrões da mente.

De facto é um curso que sendo bom para todos(as), não é de facto para todos(as).

Só para todos(as) quantos se permitam submeter a uma provação deste estilo, mas em troca ganharem acesso a uma forma de sabedoria que lhes ficará para a vida.

Reitero que o retiro é totalmente gratuito. TOTALMENTE. (interessados? Perguntem-me como, através de email)

É fornecida alimentação e acomodamento (adequados à prática de meditação), os serviços são todos efectuados por antigos alunos, sendo que quem frequenta o curso pela primeira vez, é depois convidado a dar o donativo que entender e quando entender (não é antes de ir, nem sequer no dia em que sai, mas sim quando quiser) e incitado a que se inscreva para depois servir os outros num próximo retiro, como os seus colegas fizeram por si.

A aposta é a de que uma vez experimentando em si mesmo, o próprio aluno na sua consciência terá todo o gosto em ajudar, uma vez que testemunha na primeira pessoa os benefícios da técnica e a verdadeira realidade. E eu confirmo que assim o é, de facto.

Filosofias à parte (que podem e devem ser discutidas e eventualmente discordadas), a verdade é que a técnica é maravilhosa, dá-nos a acesso a campos de nós mesmos que por ventura desconhecíamos e aguardo para sentir as melhorias introduzidas, com a prática continuada a que doravante me entregarei, substituindo a prática meditativa que até hoje desenvolvi e que era a de meditação transcendental (que continuo a recomendar a quem não se queira submeter a uma provação deste género).

Que todos os seres possam ser felizes e experimentar a verdadeira felicidade (palavras ouvidas repetidas vezes nas palestras a que tive acesso e que subscrevo integralmente)



FOTO: pois... é mais ao menos isto.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

#167 (RE)VISITANDO O #86


Nunca foi o meu plano repetir um único post neste meu blogue. Mas, agora que se aproxima vertiginosamente o dia 5 de Novembro, em que irei entrar em clausura - segundo é meu desejo - revisito o post #86 e percebo que nada mais há a dizer que não republicá-lo. E entrar ainda mais no ambicionado universo de silêncio. Assim sendo, aqui vai ele:



DOZE HORAS DE MEDITAÇÃO POR DIA? DURANTE DEZ DIAS?

Emoções fortes é o que muitos procuram durante a vida. De alguma forma também eu o tenho feito.

O desconhecido, a mim sempre me atraiu. Desde miúdo. 
Uns fogem, a mim atrai-me.

Sempre li e documentei-me fortemente, antes de todas as viagens interiores ou de transformação, que fiz. 

Só assim sei estar na vida, difícil que foi em criança, conseguir resistir à asma que me tentava levar, com as complicações daí decorrentes.

O tempo passa. Umas coisas começam a fazer mais sentido que outras e a definição de emoções fortes, também ela se altera.

Por ventura, até se complica.

Este ano, tem sido "um ano daqueles". Soma-se o aumento da intuição, a outras características que saúdo.

À medida que avançam os dias, percebo que o tempo que chegou a mim, é de excepção. 

Mas... quantos de vós aguentariam, ou se submeteriam a este calendário? 

04:00    Chamada
04:30-06:30Meditação na sala ou no quarto
06:30-08:00Desjejum e descanso
08:00-09:00Meditação em grupo na sala
09:00-11:00Meditação na sala ou no quarto, segundo as instruções do professor
11:00-12:00Almoço
12:00-13:00Descanso e perguntas individuais com o professor
13:00-14:30Meditação na sala ou no quarto
14:30-15:30Meditação em grupo na sala
15:30-17:00Meditação na sala ou no quarto, segundo as instruções do professor
17:00-18:00Lanche e descanso
18:00-19:00Meditação em grupo na sala
19:00-20:15Palestra do professor na sala
20:15-21:00Meditação em grupo na sala
21:00-21:30Perguntas abertas na sala
21:30Repouso. Apagam-se as luzes


Assim é um Retiro de Meditação Vipassana - a técnica de meditação cuja lenda conta que Buda utilizava, há cerca de 2500 anos atrás, precisamente quando ascendeu. 

Questões religiosas à parte, o que sei é que são sempre inscrições limitadas, listas de espera complexas, questionário.

Uma vez conseguindo, lá as refeições são vegetarianas, não há telemóveis, nem computadores, nem livros, nem música, nem blocos para apontamentos, nem as pessoas falam umas com as outras - nem se olham sequer - até ao último dia, em que se comunica.

Chegou a minha confirmação para um do retiros. Ainda faltam uns belos tempos*, mas sei que vai ser uma experiência "daquelas".

Talvez um dia vos conte, a caminhada por mais esta escada astral, por este atalho que vou apanhar. 

Link: O QUE É A VIPASSANA EM 17m


* "faltavam uns belos tempos", a 23 de Maio deste ano, quando publiquei o post #86 original. Passaram-se alguns meses e...:

É chegado o momento. Levo-vos pois, comigo no peito! 

...no mais absoluto  


S I L Ê N C I O