domingo, 27 de abril de 2014

#67 Felinos ao piano


Pura atracção. 

Teclas e notas soltas sem lições de técnica, mas discorridas com sentimento, algures entre universos de penumbra e as trevas que tão bem conheço.

Exorcizo vagarosamente os meus monstros, dou-lhes guarida e alimento-os com acordes graves e fortes, ombreados com fadas e anões dos mundos desconexos.

Pouco me importo se outros me ouvem, se gostam ou não. Toco apenas para esses seres que habitam as memórias, que carregam histórias de dor e saudade. 

Cada nota uma mágoa, no deslizar dos dedos o relembrar de todos os medos e depois, deixá-los partir.




#66 Memórias novas, histórias velhas


Praticar o desapego seja do que for, seja de quem for, não é tarefa finda com rapidez ou facilidade.

Mas quando a memória começa a funcionar, retrocedendo para trás do nosso corpo físico mesmo e regressa a tempos imemoriais, necessariamente temos "saudades do que não vivemos". Do que não vivemos, desta vez.

Confuso? 

Para mim, não.


A "existência aparente" é afinal uma farsa. E no "desconhecido" se esconde a "maior das naturalidades", com novas regras e conceitos, ou por ventura perante a ausência deles, enquanto divindades reguladoras às quais prestávamos culto nesse Altar do Efémero.

Amar sem barreiras, sem fronteiras, sem limites.

Amar até ao fim dos tempos e ainda depois deles e viver.
Sim! 


V  I  V  E  R



#65 Coisas que o acaso me contou


Juntei o mar e o céu
uma vista e areia molhada
destapei aos dois o véu
meditando de perna cruzada


Algures entre o norte e o sul
perdido na contemplação
entre várias cores o azul
ou o vermelho coração


São fortes as energias
que graçam neste hemisfério
juntei várias sinergias
por magia  é mistério


Entre palavras e poemas
se decifra este enredo
já não temo os dilemas
que me testam com o medo


Diz-se que a nossa liberdade
acaba onde a outra começa
mas também é bem verdade
o destino que nos aconteça


Respirar profundamente
aceitar-nos por inteiro
Trilhar o nosso caminho
isso é que é ser verdadeiro



E entretanto o sol passeou-se, colorindo com os seus raios as habituais paisagens inóspitas, que habitam dentro de nós.



sábado, 26 de abril de 2014

#64 Aprender a voar


Escolher voar com más condições, por ventura sem se saber se chegamos ao destino (esse local onde sentimos que já estivemos, mas que ainda não nos lembramos bem de lá ter ido)... sem ver a linha do horizonte sequer? É aparentemente uma péssima decisão.


O que nos pode então fazer, ainda assim, decidir voar? Uma boa dose de loucura, sentirmos que temos um avião resistente e sabermos pilotar.

Quantas horas de voo serão necessárias para se saber? Quantas quedas sobrevividas? Quantas boas e más decisões tomadas, reflectidas em experiência?


E se cai? E se o avião parte? E se não aguenta o mau tempo? E se não chega lá? E se esse "lá" não existe? E "se"?

Quem assim for, nunca sairá de terra firme. 



Nunca aprenderá a voar, jamais chegará ao seu destino.



#63 Mística


Mística se te apresentas
mas de imediato te transformas
qual visão que desaparece
e então mítica te tornas

A tacto o jaguar me envolve
intermedeia magias da floresta
na respiração se dissolve
a imagem que ainda me resta

Voa mas aterra, mariposa 
pousa no meu braço
concede-me nova glosa
ou o conforto do teu regaço

Que de novo partas sem destino
para um dia te (re)conhecer
Dentro esperará o menino
que em mim fizeste (re)nascer