sábado, 26 de abril de 2014

#64 Aprender a voar


Escolher voar com más condições, por ventura sem se saber se chegamos ao destino (esse local onde sentimos que já estivemos, mas que ainda não nos lembramos bem de lá ter ido)... sem ver a linha do horizonte sequer? É aparentemente uma péssima decisão.


O que nos pode então fazer, ainda assim, decidir voar? Uma boa dose de loucura, sentirmos que temos um avião resistente e sabermos pilotar.

Quantas horas de voo serão necessárias para se saber? Quantas quedas sobrevividas? Quantas boas e más decisões tomadas, reflectidas em experiência?


E se cai? E se o avião parte? E se não aguenta o mau tempo? E se não chega lá? E se esse "lá" não existe? E "se"?

Quem assim for, nunca sairá de terra firme. 



Nunca aprenderá a voar, jamais chegará ao seu destino.



#63 Mística


Mística se te apresentas
mas de imediato te transformas
qual visão que desaparece
e então mítica te tornas

A tacto o jaguar me envolve
intermedeia magias da floresta
na respiração se dissolve
a imagem que ainda me resta

Voa mas aterra, mariposa 
pousa no meu braço
concede-me nova glosa
ou o conforto do teu regaço

Que de novo partas sem destino
para um dia te (re)conhecer
Dentro esperará o menino
que em mim fizeste (re)nascer

#62 Oferecer-te o pôr do sol


Um dia quis oferecer-te o nascer do sol. Era por ventura pequeno, tímido e apertado, para TI...

Mas parecia tão belo e tão imenso... sem nunca conseguir ser tão intenso, quanto tanto em meu coração vi.

Na verdade, não estava o sol a apresentar-se pequeno. 

Era eu ainda na infância, a nascer sem ser adulto... afinal, ainda criança.

No entanto o sol raiou impávido e sereno... galgou as nuvens... preenchido e pleno. 

Em bicos de pés, tentei alcançá-lo... mas se pequeno era para TI: todavia grande se agigantava, para mim!

Esperei pelo fim do dia, talvez quando baixasse... de cócoras me baixei, sem que no entanto o apanhasse.

Nem o "nascer" lhe apanhei, nem a "pôr-se" o cativei.


Resta-me quem sabe, tentar um novo amanhã.



#61 O baile de máscaras


Dançam as caras no baile de máscaras
perdidas e cambaleantes
esquecidas, homenageiam os farsantes

Dançam as caras no baile de máscaras
despedaçam corações, partem sonhos e ilusões

Imagens de criança, por entre a dança comedida 
reprimida, enclausurada... como a vida

Passeiam ligeiras e destacam pedaços de carne
envelhecida, doente e putrefacta

uma obra de arte, desafiadora e abstrata
senil, digna de 

i n t e r n a m e n t o


mas única, ímpar, símbolo do 
m o v i m e n t o 

constante, sincero e verdadeiro
peças unidas, qual puzzle inteiro

Dançam as caras no baile de máscaras
e não sabem para onde ir
perdidas que estão

mas sempre a 

s o r r i r



#60 O grito



Pudesse eu dar um grito sem dor
preencher de vida este quadro em branco
encher de poemas e quadras de amor
lágrimas soltas que correm em pranto

Quem sabe outra história mais alegre
colorisse antes de tonalidades várias
oferecesse sorrisos a esse corpo imberbe
e largasse preconceitos, repressões primárias

Lá fora o dia está enublado
parece morto, triste e adormecido
até a linha do horizonte, alguém terá apagado
caio no chão, escancarado e entorpecido

Parou o tempo, não há volta a dar
terminaram o som, os odores e a imagem
fecharam o sol... está tão belo o luar
começou afinal a derradeira viagem.






NOTA: Para os menos atentos, qui ça pouco versados nas artes das letras, mas ainda assim certamente meus amigos(as) e daqueles bem queridos(as), relembro que "a escrita, a tudo permite". Personificações, interpretações várias dos nossos alteregos, decifração de estados de alma e afins. Estou vivo, bem vivo e cada vez gosto mais de viver. Possivelmente desconhecem a escrita que guardada tenho desde os 13 anos e que tem sido, a par da música: bastante terapêutica.

E já agora... o quadro acima exposto é "O grito", que é uma série de quatro pinturas do norueguês Edward Munch, representando precisamente um momento de angústia profunda e desespero existencial.

É das pinturas mais icónicas do movimento expressionista. A 2 de Maio de 2012, foi vendida por 119,9 milhões de dólares.

Naturalmente este meu pequeno poema é grátis. 

Por isso levem e se quiserem tomem este remédio, que ficam a ganhar...